Irmã Agnes Mariam de la Croix
Por
Naman Tarcha
"Mussalaha",
"Reconciliação": este é o nome do movimento que conclama o mundo a
dar fim à guerra na Síria e a silenciar o estrondo das armas. O movimento
"Reconciliação" trabalha por uma verdadeira paz através da mediação
entre as partes de um conflito que já dura três anos e cuja vítima real é só o
povo sírio.
O coração desse
movimento é uma freira: Agnes Mariam de la Croix.
"Num momento
em que o mundo precisa desesperadamente de uma solução pacífica para acabar com
o derramamento de sangue na Síria, esta iniciativa se destaca como um farol,
cuja luz alimenta a esperança que vem de dentro da sociedade síria e expressa o
desejo da maioria das pessoas de trilhar o caminho da paz". Estas palavras
são de Mairead Maguire, pacifista britânica e co-fundadora da Comunidade de
Pessoas de Paz (Community of Peace People). Prêmio Nobel da Paz em 1976, ela
propôs, em carta ao Instituto Nobel, que o reconhecimento seja concedido neste
ano à Irmã Agnes.
A freira nasceu
como Fadia Laham, de pai palestino e mãe libanesa, mas diz que se sente
totalmente síria. Passou a juventude em Beirute. Ao decidir consagrar a vida a
Deus, entrou no convento e depois fundou o Mosteiro de Mor Yacoub na região de
Qalamoun, na Síria, onde vive há 20 anos.
A verdade e a
justiça não podem deixar de impactar a consciência humana, muito menos para uma
pessoa que escolheu dedicar a vida ao serviço dos últimos entre os seres
humanos. Por trás de um sorriso sereno, os olhos da irmã Agnes revelam a dor
que ela tem visto e vivido junto com as pessoas inocentes que conheceu em sua
missão.
Quando o conflito
sírio estava apenas começando, a irmã escreveu uma carta a uma associação
humanitária francesa falando da guerra midiática e da desinformação contra o
seu país, contando com coragem o que realmente estava acontecendo. Por causa
dessa carta, os grupos rivais lançaram críticas e acusações contra ela.
Mas a Irmã Agnes
não se abateu: decidiu continuar com mais coragem ainda a luta contra a
desinformação, e, graças à sua contribuição, chegou à Síria a primeira
delegação de jornalistas estrangeiros, apesar do total encerramento do governo
sírio, temeroso de possíveis infiltrações de espiões internacionais.
A religiosa
convenceu as autoridades (a quem fez críticas oportunas em várias ocasiões) da
necessidade de dizer a verdade de maneira neutra e independente, denunciando os
massacres e crimes cometidos pelos grupos terroristas formados por jihadistas
estrangeiros que chegaram ao país para fazer “guerra santa”. Não se trata,
portanto, de um levante popular: há grupos organizados que criam manifestações
pontuais e tentam, através da violência, provocar conflitos sectários e
divisões étnicas e religiosas.
A estrada a
percorrer é difícil. As críticas chovem de todos os lados sobre a Irmã Agnes,
até mesmo de grupos que se dizem pacifistas ao mesmo tempo em que pedem
intervenção militar na Síria. Alguns a acusam de apoiar o governo sírio, quando,
na verdade, a freira denuncia os crimes dos rebeldes e desmascara as falsas
notícias.
"Eu não faço
política: o meu compromisso é puramente humanitário", disse ela em mais de
uma ocasião. Suas palavras não são vazias. Apesar dos ataques ferozes de movimentos
próximos à oposição síria e de simpatizantes dos rebeldes sírios, seu papel foi
decisivo nas áreas de maior conflito, onde, muitas vezes, conseguiu encaminhar
o compromisso entre os combatentes e o governo. Tudo graças à rede de
voluntários do movimento Mussalaha, que salvou muitos civis e reabriu os canais
do diálogo e da reconciliação.
Isto possibilitou
que a Irmã Agnes evacuasse famílias, protegesse mulheres e crianças e não
agisse como espectadora, mas permanecesse na vanguarda entre as pessoas e nos
lugares de alto risco. A freira é implacável e continua a percorrer o mundo
como porta-voz de civis inocentes: já recolheu muita ajuda durante as suas
viagens à Europa e à Austrália, conseguindo, entre outras coisas, criar um
hospital itinerante e juntar grandes quantidades de medicamentos e itens de
necessidade básica.
Enquanto o mundo
espera que as partes em conflito se sentem à mesa de negociações em Genebra,
uma freira tenaz está salvando muitas vidas todos os dias, abrindo uma janela
de esperança no meio do massacre, mediante o diálogo e a reconciliação.
* Naman Tarcha é
jornalista e apresentador de televisão. Sírio de Aleppo, graduado em
Comunicação pela Pontifícia Universidade Salesiana de Roma, vive e trabalha na
Itália há anos. É pesquisador e especialista em mídia e cultura árabe.
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